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DR, DPS e Disjuntor para Carregador de Carro Elétrico

Três dispositivos, três funções diferentes, e nenhum deles substitui o outro. Essa é a primeira coisa a entender, porque a confusão entre eles é a origem de boa parte das instalações mal protegidas que a gente encontra.

Dispositivo Protege contra Protege o quê
Disjuntor Sobrecarga e curto-circuito O condutor e a instalação
DR, dispositivo diferencial residual Corrente de fuga A pessoa
DPS, proteção contra surtos Sobretensão vinda da rede O equipamento

Uma instalação de recarga precisa dos três. Falta de qualquer um deixa um flanco aberto.

O dispositivo diferencial, e por que a classe muda tudo

Este é o item mais importante da instalação e o mais mal resolvido no mercado.

O que ele faz

Ele compara a corrente que vai pelo condutor fase com a que volta pelo neutro. Se a conta não fecha, é porque parte da corrente escapou por outro caminho, e o caminho mais preocupante é uma pessoa. Detectada a diferença, ele desarma.

Por que 30 mA, e não outro número

A sensibilidade não é escolhida por conveniência: 30 mA é o valor que a norma adota como proteção adicional contra choque nos circuitos de maior risco, e a recarga veicular é um deles.

O que quase ninguém explica: o efeito da corrente no corpo não depende só da intensidade, depende também do tempo. A IEC 60479-1, que é a norma que descreve esse efeito, não trabalha com limiares fixos de corrente: trabalha com zonas de corrente e duração. A mesma corrente que é inofensiva em alguns milissegundos pode ser grave se durar segundos.

É por isso que o dispositivo é medido pelo tempo de corte, e não só pela sensibilidade: a ABNT NBR NM 61008 exige que um dispositivo de 30 mA atue em até 40 milésimos de segundo a cinco vezes a corrente nominal residual.

Não é o número que impede o choque. É o número que impede que o choque dure.

Na prática: o dispositivo desliga o circuito antes que a corrente que atravessa uma pessoa tenha tempo de fazer estrago. Sensibilidade e tempo trabalham juntos, e é o conjunto que protege.

As classes, e o ponto cego que quase ninguém conhece

Classe O que detecta Serve para recarga?
AC Apenas fuga em corrente alternada senoidal Não
A Fuga alternada e fuga contínua pulsante Sim, quando o carregador tem proteção interna de 6 mA em corrente contínua
B Também fuga contínua pura Sim, e é necessário quando o equipamento não tem a proteção interna

O problema do Classe AC é específico e sério. O veículo elétrico trabalha em corrente contínua, e a corrente de fuga também é contínua. Diante dela, o Classe AC perde sensibilidade.

Não é que ele proteja menos de forma geral. É que ele tem um ponto cego exatamente na falha que mais importa nesse tipo de instalação. Ele pode simplesmente não atuar na hora em que deveria.

Como saber qual classe a sua instalação pede

A resposta está no manual do seu carregador, e o procedimento é este:

  1. Verifique se o manual menciona proteção interna contra corrente residual contínua de 6 mA, normalmente indicada como RDC-DD ou como detecção de corrente contínua residual
  2. Tem essa proteção: Classe A resolve, está dentro da norma, é mais fácil de encontrar e custa bem menos
  3. Não tem: é necessário Classe B, que é mais difícil de encontrar e custa em torno de R$ 1.000

A maioria dos equipamentos vendidos hoje traz a proteção interna, e por isso o Classe A atende à maior parte das instalações. Mas isso se confirma no manual, antes da instalação, não depois.

Duas regras que a norma fecha

Um dispositivo por ponto de recarga. É proibido compartilhar o mesmo diferencial entre pontos de recarga distintos.

A corrente nominal do diferencial deve ser igual ou superior à do disjuntor instalado em série com ele.

O teste que você deveria fazer todo mês

Todo dispositivo diferencial tem um botão de teste. Apertar esse botão simula uma fuga e o dispositivo deve desarmar imediatamente.

Se não desarmar, ele não está protegendo, e isso acontece com mais frequência do que se imagina, porque o mecanismo pode travar com o tempo. É um teste de cinco segundos, uma vez por mês, e é a única forma de saber que o dispositivo continua vivo.

O dispositivo de proteção contra surtos

O que ele faz

Ele desvia para o terra as sobretensões que chegam pela rede, seja por descarga atmosférica próxima, seja por manobra da distribuidora. Sem ele, a sobretensão procura o caminho de menor resistência, e esse caminho passa pelo carregador e, em seguida, pela eletrônica do veículo.

As classes

Classe Onde se instala Contra o quê
Classe I Entrada da instalação Descargas diretas
Classe II No quadro de distribuição Descargas indiretas. É o usado em residência
Classe III Junto ao equipamento sensível Proteção complementar

Na instalação de recarga, o dispositivo Classe II no quadro é o que se usa, em fase e em neutro.

A corrente de descarga, e por que o valor importa

Este é o parâmetro que costuma ser escolhido no automático, e não deveria. A ABNT NBR 5410, no item 6.3.5, e a ABNT NBR 5419 mandam escolher por análise de risco e por existência de SPDA, não por endereço. A tabela abaixo é o critério interno desta empresa, construído a partir do que encontramos em campo em Brasília, e não uma tabela normativa:

Onde a instalação está Corrente de descarga indicada
Área urbana central, com para-raios nas edificações próximas 12 kA a 20 kA
Periferia urbana, sem para-raios próximos 30 kA a 45 kA
Área rural ou edificação isolada 60 kA ou mais

O nosso padrão é DPS Classe II com corrente máxima de descarga de 45 kA, pelo critério acima: é a condição da maior parte das residências de Brasília, periferia urbana sem para-raios próximos. Quando o cenário exigir capacidade diferente, o que é raro, a proposta declara exatamente o dispositivo que será instalado.

Em condomínio, atendemos o que o documento do prédio manda. Os guias técnicos de edifício que já analisamos pedem Classe II com corrente de descarga de no mínimo 20 kA, e o nosso padrão fica acima disso. Quando o documento do condomínio fixar um valor diferente, quem manda é o documento do condomínio, e a proposta declara o dispositivo exato que será instalado.

A tensão do dispositivo

O parâmetro certo aqui é a tensão máxima de operação contínua, a Uc, e ela precisa ser compatível com a tensão entre fase e neutro da rede local. Em Brasília isso significa 275 Vca, adequado à rede de 220 V entre fase e neutro.

Dispositivo de 127 V em rede de 220 V queima. Dispositivo de 220 V em rede de 127 V funciona, mas com eficiência reduzida.

O detalhe de execução que quase ninguém respeita

O cabo que liga o dispositivo ao barramento de proteção tem regra própria: seção mínima de 4 mm² e comprimento máximo de 50 cm.

O motivo é físico. Uma sobretensão é um evento muito rápido, e o comprimento do condutor cria impedância no caminho de escoamento. Cabo longo demais anula boa parte do efeito do dispositivo, mesmo ele estando lá, instalado, com a especificação certa.

É um dos detalhes que separa uma instalação executada com critério de uma instalação que apenas tem as peças certas no quadro.

Como saber se o seu está esgotado

O dispositivo de proteção contra surtos é consumível. Ele absorve sobretensões até se esgotar, e quando se esgota para de proteger sem avisar.

Quase todos têm uma janela indicadora, normalmente verde quando está bom e vermelha quando acabou. Olhar essa janela leva dois segundos e faz parte da conferência que recomendamos junto com o teste mensal do diferencial.

O disjuntor

O que ele faz

Protege o condutor e a instalação contra dois problemas diferentes, com dois mecanismos diferentes dentro da mesma peça. O elemento térmico, bimetálico, atua em sobrecarga, que é uma corrente acima do previsto mantida por tempo. O elemento magnético atua em curto-circuito, que é uma corrente muito alta e instantânea.

Ele não protege pessoa. Quem faz isso é o diferencial. E ele não protege contra surto. Quem faz isso é o DPS.

As curvas

Curva Para que serve
B Iluminação e circuitos sem carga indutiva. Desarme rápido
C Uso geral residencial e comercial, tomadas, motores pequenos e recarga veicular
D Cargas com alto pico de partida, como motores grandes e transformadores

Em instalação de recarga se usa curva C. É a que tolera o comportamento do equipamento sem desarmar à toa e continua protegendo o condutor.

O dimensionamento, por cenário de Brasília

Configuração Potência Corrente Cabo Disjuntor
Monofásico 220 V 7,4 kW 32 A 10 mm² Curva C 40 A, 1 polo
Trifásico 380 V 11 kW 16 A por fase 6 mm² Curva C 25 A, 3 polos
Trifásico 380 V 22 kW 32 A por fase 10 mm² Curva C 40 A, 3 polos

O quadro do circuito de recarga tem três disjuntores: um na entrada do quadro, um exclusivo do circuito do carregador e um exclusivo do circuito da tomada de apoio.

E o da entrada não está ali pelo motivo que parece. Ele não é um geral dimensionado pela soma dos circuitos abaixo dele. Ele é a proteção de retaguarda dos DPS, e esse é um dos pontos que mais se erra em instalação de recarga.

O DPS trabalha em paralelo com o circuito. Quando ele chega ao fim da vida, ou quando um surto grande o leva ao curto, quem desarma é o disjuntor que está a montante do ponto onde ele está ligado. Sem um disjuntor dedicado no quadro da vaga, esse disjuntor passa a ser o geral do quadro da sua casa, ou o geral da medição, que alimenta a casa inteira. O DPS cumpre o papel dele, protege o equipamento, e de quebra derruba a casa toda às três da manhã sem ninguém entender por quê.

Com a retaguarda no lugar, o DPS em curto derruba só o quadro da recarga e o resto da casa nem percebe. Esse mesmo disjuntor ainda funciona como redundância do circuito exclusivo do carregador. É por isso que ele não segue regra de soma de demanda: a função dele é seletividade, não capacidade.

Um ponto que muita instalação erra: o dispositivo diferencial do ponto de recarga é dele e de mais nada. A ABNT NBR 17019 é explícita ao dizer que esse dispositivo não pode ser usado para proteger outros pontos de conexão nem outros equipamentos. Ou seja, o carregador tem o DR dele e a tomada de apoio tem o dela. O que os dois compartilham é apenas o disjuntor geral e o DPS do quadro.

O disjuntor protege o cabo, não o equipamento. Por isso ele nunca pode ser maior do que a capacidade do condutor que ele alimenta. Trocar um disjuntor que desarma por outro de corrente maior, sem mexer no cabo, é retirar a proteção do condutor e deixar ele aquecer livremente. É um dos erros mais perigosos e mais comuns em instalação residencial.

A cadeia completa, na ordem certa

A ordem em que os dispositivos aparecem no circuito não é arbitrária:

“ Quadro de distribuição ↓ Disjuntor geral ↓ DPS Classe II, em fase e em neutro ↓ Disjuntor curva C individual do circuito de recarga ↓ Dispositivo diferencial de 30 mA, Classe A ou B conforme o carregador ↓ Condutor a partir de 10 mm² EPR ou HEPR com dupla isolação de 1 kV, mais condutor de proteção de 10 mm² ↓ Estação de recarga “

O diferencial vem depois do disjuntor, em série com ele. E o DPS fica na entrada do conjunto, porque ele protege tudo que vem depois.

O que costuma estar errado nas instalações que a gente revisa

Cinco achados concentram a maior parte dos casos:

  1. Dispositivo diferencial Classe AC no lugar de Classe A ou B
  2. DPS ausente, ou presente mas com a janela indicadora já vermelha
  3. DPS com corrente de descarga insuficiente para a região da instalação
  4. Cabo do DPS longo demais, anulando parte do efeito
  5. Disjuntor maior que a capacidade do cabo, normalmente instalado por alguém que trocou a peça para parar de desarmar

Como continuar

Se você quer conferir a instalação inteira, e não apenas as proteções, a página sobre o que exigir de quem instala trata dos nove critérios.

Se a sua instalação já existe, a revisão verifica a classe de cada dispositivo, o estado do DPS pela janela indicadora, o dimensionamento do disjuntor e o aterramento, com medição.

Conferir as proteções da minha instalação

Perguntas frequentes

Qual DR usar em carregador de carro elétrico?

Um dispositivo diferencial residual de 30 mA, Classe A ou Classe B, individual para o circuito de recarga. O Classe A atende quando o carregador tem proteção interna contra corrente residual contínua de 6 mA, que é o caso da maioria dos equipamentos atuais, e isso se confirma no manual do fabricante. O Classe B é necessário quando o equipamento não tem essa proteção.

Por que o DR Classe AC não pode ser usado?

Porque ele detecta apenas fuga em corrente alternada senoidal. O veículo elétrico trabalha em corrente contínua e a corrente de fuga também é contínua, e diante dela o Classe AC perde sensibilidade. Ele tem um ponto cego exatamente na falha que mais importa nesse tipo de instalação.

Qual DPS usar para carregador em Brasília?

Classe II, com tensão máxima de operação contínua de 275 Vca, em fase e em neutro. O nosso padrão é corrente máxima de descarga de 45 kA, pelo critério interno que publicamos na página: é a condição da maior parte das residências de Brasília, periferia urbana sem para-raios próximos. A norma manda escolher por análise de risco e por existência de SPDA, não por endereço. Em condomínio, quando o guia técnico do prédio fixa um valor, quem manda é o documento do prédio.

Como sei se meu DPS ainda está funcionando?

Pela janela indicadora, presente em quase todos os modelos. Verde normalmente significa que está íntegro e vermelho significa que se esgotou. O dispositivo é consumível: absorve sobretensões até acabar, e quando acaba para de proteger sem avisar.

Qual disjuntor para carregador de 7,4 kW?

Curva C de 40 A, monopolar, com cabo de 10 mm², para instalação monofásica em 220 V, que é a configuração mais comum em Brasília. Em trifásico 380 V, 25 A tripolar para 11 kW e 40 A tripolar para 22 kW.

Meu disjuntor fica desarmando. Posso trocar por um maior?

Não sem verificar o cabo. O disjuntor protege o condutor, e um disjuntor de corrente maior permite que passe mais corrente do que o cabo aguenta, deixando ele aquecer sem nada interromper. Disjuntor desarmando é sintoma, e as causas comuns são circuito subdimensionado, curto, ou condutor de seção insuficiente.

Preciso mesmo dos três dispositivos?

Sim, porque cada um protege contra uma coisa diferente. O disjuntor protege o condutor contra sobrecarga e curto, o dispositivo diferencial protege a pessoa contra choque, e o DPS protege o equipamento contra sobretensão vinda da rede. Nenhum substitui o outro.

O DR precisa ser exclusivo do carregador?

Sim, e isso é literal na ABNT NBR 17019: o dispositivo diferencial que protege o ponto de recarga não pode ser usado para proteger outros pontos de conexão nem outros equipamentos. Na prática: o carregador tem o DR dele, a tomada de apoio tem o dela, e os dois compartilham apenas o disjuntor geral e o DPS do quadro.

Mande as fotos e receba a análise do especialista.

Foto do quadro elétrico, do medidor e do ponto onde o carregador vai ficar, mais um vídeo curto do trajeto entre eles. Com isso o especialista já avalia o seu cenário e te passa um valor mais preciso, sem visita e sem compromisso.

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